A solução é vender o Brasil

20.11.2020 | Olívia Bulla

Paulo Guedes fala em vender parte das reservas cambiais para forçar redução da dívida pública, o que pode soar como música ao mercado financeiro, apesar dos riscos à frente

O ministro Paulo Guedes tentou desenhar o quadro de uma maneira diferente, mas a imagem passada ao mercado financeiro está clara: a crise fiscal é profunda e o retrato do país vai ficar feio a ponto de precisar fazer uma devastação das reservas internacionais para evitar um real ainda mais fraco, enquanto se faz o que for "necessário" para reduzir a dívida do Brasil. De quebra, pode haver a necessidade de ajustar a taxa básica de juros, pois não se pode ignorar a verdadeira demanda pela moeda nacional.

É claro que o titular da Economia, que ainda tenta manter a posição de Posto Ipiranga aos olhos dos investidores, não ilustrou o cenário dessa forma. Ao contrário, Guedes manteve o tom firme e duro, tão peculiar do governo, para dizer aquilo que o mercado vem fazendo coro há algum tempo: é preciso usar parte das reservas cambiais, que hoje somam US$ 355,5 bilhões, para suavizar o impacto da queda forçada da dívida.

Afinal, se o rombo das contas públicas não diminui porque não se faz corte de gastos, venda de ativos, privatização, desalavancagem dos bancos públicos, reformas econômicas nem aumento de impostos; o jeito, então, é reduzir a dívida através da estratégia (errada) de dólar alto e juros baixos. Daí, então, porque será preciso vender as reservas, pois a continuidade dessa tática tende a valorizar a moeda norte-americana ainda mais.

A delicada situação das contas públicas ficou evidenciada ontem, após a realização de um tradicional leilão de títulos pelo Tesouro. A autarquia “trucou” a posição montada na véspera pelos investidores, quando puxaram as taxas dos DIs para garantir prêmios mais elevados no dia da oferta, e acabou não contemplando a demanda por papéis mais longos. Como resultado, o mercado “comprou a briga” e colocou a estratégia do Tesouro em xeque.

A tática foi mesmo arriscada, levando-se em conta a necessidade do Tesouro em fazer caixa para financiar a dívida de curto prazo, diante de um resgate de quase R$ 650 bilhões logo na virada do ano. O “olé” no mercado acirrou a disputa para os próximos leilões, quando, em algum momento, terá de colocar os lotes desejados, podendo ter de pagar um valor ainda mais alto, uma vez que os prêmios embutidos na véspera não cederam ontem.

Seja como for, o comportamento do mercado reflete as incertezas em relação ao “teto dos gastos” somadas às dúvidas quanto à condução da Selic, em meio ao aumento da inflação. Daí que, se a equipe econômica não conseguir estabilizar e, então, reduzir a dívida depois que ultrapassar 100% do PIB em 2025, a venda das reservas agora deixa o país também mais vulnerável a choques externos no horizonte à frente.

Seria, então, o que se chama de “tempestade perfeita”. Ainda mais se a tal segunda onda de coronavírus, que vem sendo subestimada pelos investidores, realmente se formar por aqui. Mas ao que tudo indica o Brasil ainda vivencia um longo e prolongado primeiro ciclo de contágio da covid-19 que, aliás, está descontrolado, diante da queda na realização de testes da doença pelo país, que já nem eram tão expressivos.

Não tem milagre

Lá fora, a disseminação do vírus nos dois lados do Atlântico Norte preocupa os investidores, que não embutiram nos preços dos ativos um “duplo mergulho” da economia, que deve ocorrer diante da volta das medidas restritivas à atividade e à circulação de pessoas. Aos poucos, o mercado financeiro se dá conta que a melhor forma de combate é convocando o “quarteto fantástico”: testes em massa, rastreamento, isolamento (lockdown) e quarentena.

Portanto, não serão estímulos monetários adicionais nem novos pacotes fiscais e, muito menos, a vacina sozinha, que irão virar a página da pandemia no mundo. Ainda assim, a imunização em massa, quando possível, será uma ferramenta eficaz. Com isso, os ativos de risco continuam ponderando os riscos e alimentando esperanças, o que imprime perdas moderadas entre bolsas, moedas e commodities nesta manhã.

Agenda com cara de feriado

O mercado doméstico funciona normalmente neste Dia da Consciência Negra, em virtude das decisões da prefeitura e do governo de São Paulo de antecipar os feriados municipal e estadual em maio, em virtude das medidas de isolamento social e restrição às atividades por causa da pandemia. Porém, a agenda econômica do dia está esvaziada por aqui.

Lá fora, também parece ser feriado, pois o calendário econômico está sem destaques, trazendo apenas a leitura preliminar da confiança do consumidor na zona do euro em novembro (12h).

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