Bolsonaro testa populismo fiscal e ataca Petrobras

19.02.2021 | Olívia Bulla Mercado

De olho nas eleições de 2022, presidente Bolsonaro zera impostos sobre gás de cozinha e diesel, dizendo que algo vai acontecer na estatal petroleira

A Petrobras volta a merecer atenção especial dos holofotes do mercado financeiro nesta sexta-feira. No mesmo dia em que a petroleira anunciou aumento nos preços das gasolina e do diesel nas refinarias, que entra em vigor hoje e elimina a defasagem de preços em relação aos concorrentes globais, o presidente Jair Bolsonaro flertou com certo populismo em sua live, elevando a desconfiança em relação ao compromisso com o fiscal.

A apoiadores, público-alvo do tradicional programa semanal, ele disse que “alguma coisa vai acontecer na Petrobras nos próximos dias”, chamando o reajuste de “excessivo” e “fora da curva”. Bolsonaro também citou afirmações do presidente da companhia, Roberto Castello Branco, que disse que “não tem nada a ver com caminhoneiros” e garantiu que a fala do executivo “terá consequência”.

Ontem, as ações ordinárias (ON) e preferenciais (PN) da estatal fecharam em queda ao redor de 1%, cada, e devem voltar a sofrer pressão na Bolsa brasileira hoje, com a fala do presidente ecoando nos demais negócios locais. Afinal, além de atacar a Petrobras, o presidente também anunciou, sem detalhes, a renúncia dos impostos federais incididos sobre o gás de cozinha e a suspensão por dois meses da tributação sobre o diesel.

Além disso, o caso Daniel Silveira ainda está longe de ser solucionado e o silêncio de Bolsonaro em relação à prisão do deputado também deve estar incomodando parte do seu eleitorado. Como já dito aqui, o grande desafio do Palácio do Planalto é atender aos interesses de grupos aliados tão diferentes, sendo que 2022 é logo ali e o presidente está cada vez mais atento à reeleição.

A expectativa de encaminhamento rápido na Câmara do episódio envolvendo um dos membros da tropa de choque bolsonarista, pulando então para a pauta econômica do governo, esfriou ontem, pois a Câmara adiou para hoje a sessão em que irá decidir sobre a prisão do deputado. Portanto, os deputados já estão gastando um tempo precioso que poderia ser dedicado a temas mais urgentes.

Mas o caso continua tendo desdobramentos. Após a Polícia Federal encontrar dois celulares na sala onde Silveira estava preso, o deputado foi transferido para um batalhão prisional da Polícia Militar do Rio de Janeiro, onde circula sem ser incomodado e promete “mostrar ao Brasil quem é o STF”. O parlamentar trabalhou durante cinco anos na PM do Estado, onde se notabilizou por gravar vídeos durante as ações de patrulhamento.

E eu com isso?

O investidor deve estar se perguntando o que a prisão de Silveira tem a ver com o mercado, mas o fato é que a prisão do deputado já se converteu em novos atrasos na já travada pauta do Congresso e, aparentemente, não há uma solução rápida ao caso, que continua merecendo atenção. Ainda não se sabe se o episódio ocorreu propositalmente, dada as dificuldades do governo em encontrar espaço no Orçamento para o auxílio emergencial.

Cortina de fumaça ou não, o assunto surgiu como algo para tirar o foco dos parlamentares, ainda que não tenha nenhum impacto direto nas tratativas para definir como o benefício social será pago sem “furar” o “teto dos gastos”. Segundo o presidente da Câmara, Arthur Lira, o assunto deve voltar à pauta na semana que vem, juntamente com outras questões envolvendo a pandemia, como as vacinas, além da agenda de reformas.

Para mostrar que a lista de prioridades no Legislativo não mudou, o Senado promete para a próxima quinta-feira, a votação da PEC Emergencial, que propõe uma série de gatilhos automáticos de cortes de gastos em momentos de crise, abrindo espaço nas contas públicas para a nova rodada do auxílio emergencial. O governo promete enviar uma Medida Provisória (MP) na semana que vem que viabiliza os pagamentos já em março.

Ainda assim, permanecem as dúvidas em relação ao valor do benefício e o total de parcelas, bem como se haverá uma acomodação no Orçamento dessa expansão fiscal. Ou seja, o auxílio pode acabar sendo pago sem que, em troca, gastos sejam cortados. Por ora, a única certeza é em relação ao total de beneficiários a serem atendidos, que deve ser a metade dos contemplados em 2020, somando pouco mais de 30 milhões de brasileiros.

Exterior nem aí

Alheio a todo esse mal-estar na política brasileira, o mercado internacional continua se debatendo em torno do tema da “reflação”, as implicações e os riscos ao cenário provocados pelo efeito-dominó de maior consumo nos Estados Unidos via expressivos estímulos monetários e fiscais. O temor de que uma inevitável escalada da inflação resulte em juros mais altos nos EUA testa a força do dólar e sustenta os títulos norte-americanos.

O juro projetado pelo papel da dívida de 10 anos (T-note) segue negociado ao redor de 1,30%, o que reduz o fôlego das bolsas em Nova York. Os índices futuros amanheceram sem uma direção firme, em meio à queda do petróleo e após uma sessão em brilho na Ásia - com altas em Xangai (+0,6%) e Hong Kong (+0,2%), mas baixa em Tóquio (-0,7%) - enquanto as praças europeias tentam pegar carona nos dados sobre a atividade na região.

A leitura preliminar do índice dos gerentes de compras (PMI) dos setores industrial e de serviços na zona do euro subiu ao maior nível em dois meses, a 48,1 em fevereiro, de 47,8 em janeiro, ficando acima da previsão de ligeira oscilação positiva a 47,9. A abertura do dado mostra que a manufatura sustentou a melhora, com o PMI setorial subindo ao maior nível em 36 meses, a 57,7, enquanto o de serviços caiu a 44,7.

Mais indicadores preliminares sobre a atividade neste mês serão conhecidos ao final da manhã, desta vez, nos EUA. O calendário norte-americano também traz novos números sobre o setor imobiliário em janeiro. No Brasil, a agenda econômica está esvaziada, o que tende a manter o foco do mercado doméstico em Brasília, mas sem descuidar do comportamento dos ativos de risco no exterior.

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