Exterior comanda rali, apesar dos riscos no Brasil

19.01.2021 | Olívia Bulla

Mercado financeiro mantém apetite por risco no exterior nesta véspera da posse de Biden, enquanto ativos no Brasil tentam ignorar desafios locais com vacina e na política

O início da vacinação no Brasil melhorou o ambiente, mas o comportamento favorável do mercado financeiro ontem esteve mais atrelado ao humor global. Até porque as dúvidas em relação à imunização da população são muitas, com o país tendo disponível até agora 6 milhões das 30 milhões de doses necessárias só para os grupos prioritários e dependendo da matéria-prima que vem da China para fabricar mais vacinas contra a covid-19.

Na volta do pregão em Wall Street, após o fim de semana prolongado nos Estados Unidos, os investidores mantêm a expectativa de boas notícias do novo governo, nesta véspera da posse do presidente eleito Joe Biden. O sinal positivo prevalece entre os ativos de risco, à espera da audiência de Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve, indicada para o cargo de secretária do Tesouro. Ela depõe no Congresso a partir das 12h.

A expectativa é de que o depoimento sirva de teste para os legisladores avaliarem o pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão anunciado na semana passada por Biden, com medidas de combate à disseminação do coronavírus e de estímulos à economia norte-americana. Yellen deve tratar também da política monetária, dizendo que as baixas taxas de juros no país significam que é hora de agir.

À espera da confirmação no cargo, os índices futuros das bolsas de Nova York exibem ganhos firmes, embalando a abertura do pregão na Europa, após uma sessão positiva na Ásia - exceto em Xangai (-0,8%). Já o dólar perde terreno de forma generalizada, diante da expectativa de que Yellen deixará claro que as taxas de câmbio são determinadas pelo mercado. O juro do título dos EUA de 10 anos (T-note) volta a ficar acima de 1,10%.

“Vachina”

A ver, então, se os ativos locais irão continuar pegando carona no rali externo e seguindo alheios aos desafios domésticos. E são muitos. Antes mesmo da aceleração de casos e mortes por coronavírus, a atividade econômica já dava sinais de perda de tração, o que aumenta a pressão por medidas adicionais de estímulo, em meio ao acúmulo de riscos fiscais e inflacionários. Tudo isso torna a situação delicada, “apesar da vacina”.

Aliás, para fabricar as duas únicas vacinas aprovadas de forma emergencial pela Anvisa - CoronaVac e Oxford - o Brasil precisa contar com a ajuda de um país que o presidente Jair Bolsonaro, os filhos dele e ministros do seu governo vêm atacando de várias formas desde o início da pandemia: a China. É de lá que vem os insumos para que a Fiocruz e o Instituto Butantan possam fabricar aqui os imunizantes.

O carregamento da matéria-prima está parado em solo chinês, cerca de um mês antes do maior feriado do país, que fica paralisado por mais de uma semana. E na chamada “diplomacia da vacina”, a Índia pode priorizar a exportação de doses para outros países, gerando um novo atraso no lote de 2 milhões de imunizantes da Oxford contratados pelo Brasil. A previsão é de que as primeiras remessas ocorram "nas próximas semanas".

É a política!

Mas o presidente está mesmo preocupado é com as ameaças ao seu mandato, o que o levou a dizer ontem que são as “Forças Armadas que decidem se o povo vive em uma democracia ou em uma ditadura”. A fala de Bolsonaro é uma reação desesperada ao aumento da pressão popular por um impeachment, à perda de popularidade que já aparece nas pesquisas e ao apoio do candidato rival à presidência na Câmara.

Vamos por partes. Nas redes sociais, os pedidos de impeachment do presidente cresceram de forma exponencial, ao mesmo tempo em que movimentos sociais, artistas, juristas e políticos promovem uma nova ofensiva na campanha por crime de responsabilidade de Bolsonaro no combate à pandemia. Essa mobilização é captada pelos números, com a rejeição ao governo subindo de 35% para 40% entre dezembro e janeiro.

O levantamento foi feito pela pesquisa XP/Ipespe e o porcentual é similar ao visto em abril do ano passado. Ao mesmo tempo, a avaliação da gestão Bolsonaro como ótima ou boa caiu de 38% para 32%, marcando a primeira vez desde maio em que há redução no total de apoiadores ao presidente. Como se sabe, a abertura do processo de impeachment acontece na Câmara, que estará sob nova direção em fevereiro.

Ontem à noite, o Solidariedade decidiu trocar o apoio ao deputado Arthur Lira, que tem o aval de Bolsonaro, pela candidatura de Baleia Rossi, juntando-se ao bloco liderado pelo atual presidente, Rodrigo Maia, e que conta com partidos de oposição - entre eles o PT. Porém, o PTB decidiu apoiar Lira. Com isso, o placar estaria de 272 votos para Rossi contra 196 votos. Os 10 deputados do Podemos ainda não manifestaram apoio.

Agenda sem destaques

A agenda econômica do dia está sem destaques hoje. No Brasil, a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) começa hoje, mas o anúncio da decisão da Selic será feito apenas amanhã. Entre os indicadores, sai a segunda prévia deste mês do IGP-M (8h). No exterior, os EUA informam apenas o fluxo de capital estrangeiro em novembro (18h). Logo cedo, na zona do euro, tem o índice ZEW de sentimento econômico.

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