Lista de focos de tensão é crescente

04.12.2020 | Olívia Bulla

Problemas na produção de vacina contra a covid-19, disputas políticas em Brasília e decepção com economia brasileira não impedem rali do mercado financeiro

Problemas na cadeia de suprimentos para a produção de doses da vacina da Pfizer, lockdown na Califórnia por causa da pandemia, ritmo aquém do esperado na retomada da economia brasileira, disputas políticas na eleição no Congresso. É crescente a lista de focos de tensão a serem acompanhados pelo mercado financeiro, mas nenhum deles têm sido capaz de interromper o apetite dos investidores por risco, em meio à farta liquidez.

Os ativos globais permanecem em níveis recordes de alta, antecipando a expectativa de forte recuperação econômica global no ano que vem, sustentada por estímulos monetários e fiscais adicionais nos Estados Unidos. Uma proposta bipartidária aumenta as chances de um novo pacote antes do fim do ano, ao passo que o Federal Reserve pode voltar a agir na última reunião de 2020, em meados deste mês.

Aqui no Brasil, o “decepcionante” crescimento de 7,7% do PIB no confronto trimestral combinado com a perspectiva de fim do auxílio emergencial do governo trouxe dúvidas sobre a sustentabilidade da melhora da atividade, diante do número alarmante de 25% da população sem emprego, ao mesmo tempo em que favorece a manutenção dos juros baixos (Selic) por um período maior. Mas é o rigor fiscal o que mais preocupa.

A “jabuticaba brasileira” proposta pelo ministro Paulo Guedes (Economia) como meta para as contas públicas em 2021 transformou-se em uma nova ameaça fiscal, gerando críticas do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. O governo se propõe em economizar a diferença entre as receitas e despesas necessária para respeitar o “teto dos gastos”. Não há, portanto, nenhuma proposta de contingenciamento, que fica condicionado à arrecadação.

Diante disso, os negócios locais monitoram a possibilidade ventilada pela Suprema Corte (STF), de permitir a reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado, viabilizando a permanência de Maia, o que pode trazer problemas ao Executivo, e também de David Alcolumbre. Ontem, o ministro Gilmar Mendes, votou a favor da tese, mas o julgamento deve se estender até a semana que vem.

Enquanto isso, o Palácio do Planalto articula em torno de um candidato, em busca de apoio para o andamento da agenda de reformas e da votação de pautas de interesse do governo no Congresso. Mas a inclinação do presidente Jair Bolsonaro ao deputado Arthur Lira pode causar desgaste, em meio à denúncia de desvios de “rachadinhas” em Alagoas, durante o mandato estadual. Além disso, o “passe” do Centrão vai ficando cada vez mais caro.

Apesar de tudo isso, o Ibovespa encerrou o pregão de ontem em novo patamar, na casa dos 112 mil pontos, enquanto o dólar caiu ao menor nível desde o fim de julho, já abaixo de R$ 5,15, ao mesmo tempo em que os prêmios embutidos na curva de juros futuros derreteram. O forte fluxo de investidores estrangeiros por ativos brasileiros conduziu o movimento, após a bem-sucedida emissão externa feita pelo Tesouro Nacional.

À espera do payroll

Portanto, o rumo dos negócios locais tende a seguir mais dependente da disposição dos “gringos”, fazendo jus a um conhecido jargão do mercado financeiro, de que “contra fluxo não há argumentos”. Por ora, a sinalização para o dia vinda do exterior é positiva, com os índices futuros das bolsas de Nova York sustentando ganhos moderados enquanto aguardam a divulgação do relatório oficial sobre o mercado de trabalho nos EUA (payroll).

As principais praças europeias também se sustentam em alta, após uma sessão no azul na Ásia - exceto em Tóquio (-0,2%). O petróleo avança, após os países exportadores (Opep) concordarem em reduzir a produção de forma mais gradual. O dólar segue fraco. De um modo geral, os investidores vivem um cabo-de-guerra entre o otimismo com a recuperação econômica combinada com a distribuição e eficácia de vacinas e o temor com o aumento de casos e óbitos por covid-19 no Ocidente.

Esse dilema modera a força do rali recente dos ativos globais, que ficam à mercê dos números do payroll para definir o rumo do dia. A previsão é de que tenham sido criadas 500 mil vagas no país em novembro, desacelerando-se em relação à abertura de 638 mil postos em outubro, o que tende a manter a taxa de desemprego em 6,9%. Já o ganho médio por hora deve oscilar em alta de 0,1% no mês e subir 4,4% no confronto anual.

O resultado efetivo será conhecido às 10h30. Nesse mesmo horário, saem os dados da balança comercial norte-americana em outubro. Depois, ainda na agenda econômica nos EUA, tem as encomendas às fábricas em outubro (12h). No Brasil, o calendário do dia está esvaziado.

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