‘Mais uma que Jair Bolsonaro ganha’

02.02.2021 | Olívia Bulla


Governo sai fortalecido da eleição no Congresso, com vitória dos candidatos apoiados pelo presidente na Câmara e no Senado, mas desafios persistem

Um governo mais fortalecido toma posse hoje no Brasil. O presidente Jair Bolsonaro é o grande vencedor nas eleições na Câmara e no Senado, pois tanto Arthur Lira quanto Rodrigo Pacheco contavam com o apoio do Palácio do Planalto. Só isso já é um bom motivo para manter o bom humor dos mercados domésticos, sendo que o sinal positivo entre os ativos de risco vindo do exterior tende a intensificar o ritmo dos negócios locais.

Mas o resultado da votação no Congresso está longe de representar uma vitória da agenda de reformas ou uma solução para as contas públicas. A vitória de Lira na Câmara traz com ele todas as forças do Centrão - esses partidos conservadores que geralmente equilibram a política entre os excessos da esquerda e da direita, mas que inclinam a balança a favor do status quo, num ambiente dominado pela pandemia e pela “guerra das vacinas”.

Portanto, o desfecho da eleição parlamentar não significa que o governo terá a capacidade de entregar (e executar) muitos projetos, mesmo que mais modesto. A retomada de gastos com o auxílio emergencial será o primeiro grande teste. Ainda persistem dúvidas quanto ao trâmite das reformas - em especial, a tributária, a administrativa e a PEC emergencial - bem como o respeito à regra do teto dos gastos. Ou seja, o risco fiscal persiste.

Além disso, as rusgas de uma disputa acirrada na Câmara, com mudança de lado de boa parte do DEM e do PSDB, levantam dúvidas sobre o comportamento do agora ex-presidente Rodrigo Maia e de seus aliados daqui em diante. Aliás, esse racha da centro-direita tende a se intensificar ao longo do tempo, com as disputas internas limitando a pauta de votação. A não ser que a reforma ministerial satisfaça os anseios.

Afinal, sabe-se que, apesar de Lira ter o apoio de Bolsonaro, não é objetivo do deputado tocar a agenda da equipe econômica. Mas, sim, responder aos interesses do 'baixo clero’. Isso em um ambiente mais turbulento com a oposição. Assim, a relação entre governo e Congresso deve seguir instável, carente de uma articulação e de liderança partidária, pois o capital político de Bolsonaro é negativo, em meio à queda da popularidade.

Ao menos o risco de um processo de impeachment contra o mandato do presidente foi afastado, apesar da gravidade da covid-19 no país voltar a impactar a percepção em torno do governo. E o mercado financeiro pode até comemorar que um obstáculo foi superado, mas os desafios permanecem. Passada então, a euforia dos ativos brasileiros, a moral da história pode acabar sendo uma vitória de Pirro.

Exterior embalado

Os mercados internacionais amanheceram em tom positivo, com os investidores renovando as esperanças em relação ao progresso nas vacinações contra a covid-19 e alimentando o apetite por risco em meio à expectativa por estímulos fiscais adicionais nos Estados Unidos. Os índices futuros das bolsas de Nova York têm ganhos firmes, embalando a abertura do pregão europeu, após uma sessão de ganhos na Ásia.

Nos demais mercados, destaque para a prata, que cai mais de 5%, após alcançar o maior nível em oito anos, em meio aos sinais de que os investidores estão emulando os movimentos especulativos com as ações da GameStop também em outras classes de ativos. O ouro também recua. O petróleo, por sua vez, sobe mais de 1%, buscando a faixa de US$ 55 por barril.

Já o dólar perde terreno de forma generalizada, com as moedas rivais e correlacionadas às commodities avançando, enquanto o rendimento do título de 10 anos dos EUA (T-note) está estável, ao redor de 1,10%, com a ponta longa da curva de juros norte-americanos atingindo o nível mais acentuado desde 2016, o que reforça a confiança na recuperação econômica global.

Indústria nacional em destaque

Os números da produção industrial brasileira em dezembro e no acumulado em 2020 são o destaque da agenda econômica do dia, diante do calendário norte-americano esvaziado. A expectativa é de que a atividade tenha perdido tração no último mês do ano passado, podendo até interromper uma sequência de sete altas consecutivas. Já na comparação anual, a indústria deve registrar o quarto resultado positivo consecutivo.

Os dados oficiais serão conhecidos às 9h. Logo cedo, na zona do euro, sai a leitura preliminar do Produto Interno Bruto (PIB) na região referente ao quarto trimestre de 2020. No fim do dia, na China, é a vez do índice dos gerentes de compras (PMI) do setor de serviços em janeiro, calculado pelo Caixin em parceria com a Markit.

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