Mercado de volta ao passado - Parte II

28.01.2021 | Olívia Bulla

Ibovespa tem maior sequência de quedas em cinco anos, com entraves locais impedindo exuberância irracional, que parece formar a mãe de todas as bolhas

Brasil, 23 de Maio de 2016. O país passava por um processo de impeachment, interrompendo o mandato de um(a) presidente eleito(a) pela segunda vez na história desde a redemocratização, em 1989, e também mergulhava na mais profunda recessão econômica, culminando em um tombo de 8% do PIB no período de dois anos.

Foi a esse passado que o Ibovespa retrocedeu ontem, não em termos de pontuação, já que segue na faixa dos 115 mil pontos - bem distante da marca dos 50 mil pontos de apenas cinco anos atrás. Mas ao acumular seis quedas seguidas, amargando perdas de 6,15%, a Bolsa brasileira só não supera a sequência de sete derrapadas daquele maio sangrento.

A pergunta que cabe é: estaria o mercado acionário doméstico antecipando-se a mais um processo político de destituição do chefe da República combinado com uma queda da economia neste semestre, em um duplo mergulho da atividade sob a forma de “W”? Qualquer semelhança, talvez, seja mera coincidência.

Ainda mais em um momento em que o mercado financeiro parece reviver a tal da “exuberância irracional”, tão propalada pelo ex-presidente do Federal Reserve Alan Greenspan, com os negócios com ações virando um jogo de aquário, no qual é possível “sardinhas” (pessoas físicas) comerem tubarões (grande fundos de investimentos).

O emblemático caso da GameStop, negociada na Nasdaq, é o exemplo mais recente do quão disfuncional está o mercado global, em meio ao ávido - e nada saudável - apetite dos investidores por risco. A alta semanal de mais de 400% dos papéis da varejista de jogos mostra que, talvez, os bancos centrais estejam criando a mãe de todas as bolhas.

Nesse ambiente, a única certeza é que a volatilidade tende a persistir, sendo muito difícil operar a partir de fundamentos ou mesmo identificar um cenário central com o qual trabalhar. E é aí que o investidor pode ver seu retorno no dia (intraday) ficar sujeito a movimentos aleatórios ou, pior, ter de cobrir o prejuízo e estancar a sangria (short squeeze).

Afinal, se as “sardinhas” em Nova York abocanharam peixes grandes que apostaram na queda de um ativo, vendendo-o a descoberto (shorteados), os pequenos investidores em São Paulo também podem se sentir encorajados em operar com base em fóruns de internet. A diferença é que, no Brasil, a “bolha do Alicate” e OGX não são exatamente cases de sucesso.

100% local

Por isso, é preciso levar em conta os desafios de curto prazo, até mesmo para encontrar novos pontos de entrada, em tempos de correção. Mas o fato é que o cenário doméstico segue repleto de incertezas, em meio à grave crise sanitária, com as mortes por covid-19 no país representando 22% dos óbitos globais e sem sinais de extinção diante dos obstáculos à vacinação; à deterioração fiscal, aos riscos inflacionários e à situação política.

É bom lembrar, o investidor local aposta em um desfecho positivo para o governo nas eleições no Congresso, que ocorrem na semana que vem. Mas o resultado está totalmente em aberto e, a depender de quem assumir as presidências na Câmara e no Senado, o próximo passo pode ser retomar a discussão da agenda de reformas ou iniciar um novo debate sobre o já mencionado impeachment - desta vez, do presidente Jair Bolsonaro.

Ainda que o mandato dele não seja ameaçado, uma nova rodada do auxílio emergencial deve entrar na pauta. E a dúvida é se o “teto dos gastos” será respeitado. A situação é tão delicada que o mercado (e o próprio Banco Central) dá como certa uma alta da Selic em breve - aliás, a primeira desde 2016. Por ora, a expectativa ainda é de um ciclo gradual e curto, mas vai depender do compromisso do governo com a austeridade fiscal.

Na última vez que tentaram, na terça-feira, Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes não convenceram os investidores com meras palavras soltas ao vento. A sinalização pode até ser favorável, mas o mercado quer ações práticas e sabe que, se governo e Congresso não agirem de forma conjunta, caberá ao BC assumir as rédeas e trazer equilíbrio aos ativos.

‘A Mãe de Todas as Bolhas’

Lá fora, o drama do mercado em torno da GameStop está se espalhando para além de Wall Street, destruindo ações de Amsterdã a Sydney, com as empresas fortemente vendidas a descoberto (shorteadas) se tornando os principais alvos. Entre os favoritos, estão Unibal-Rodamco-Westfield, na Europa, e Rakuten e Pigeon, em Tóquio. Na Austrália, uma empresa com o símbolo “GME” saltou 60%, em um aparente caso de erro de identidade.

Diante desse frenesi promovido por fóruns na internet, o índice VIX, que mede o pânico no mercado de ações ações norte-americano, disparou mais de 60%, atingindo o maior nível desde outubro. Em outro sinal de maior cautela nos negócios, o rendimento do título dos Estados Unidos de 10 anos (T-note) recua, aproximando-se da marca de 1,00%. Por sua vez, o dólar sobe.

Nas bolsas, o sinal negativo prevalece, vindo desde a Ásia, passando pela Europa, até chegar em Nova York. Destaque para as perdas em Tóquio (-1,5%), Xangai (-1,9%) e Hong Kong (-2,6%), com a região sentindo o impacto dos danos econômicos de uma prolongada pandemia no Ocidente. Mas alguns países orientais temem novos surtos de coronavírus, como o Japão, onde as mortes diárias por covid-19 voltaram a superar cem pessoas.

Na China, é grande o incentivo para impedir que a maior migração humana no mundo ocorra pela segunda vez seguida, em meio à proximidade do Ano Novo Lunar. A expectativa é de que o tráfego de passageiros seja de pouco mais de 1,1 bilhão, o equivalente a uma queda de 60% em relação a 2019 e de mais de -20% na comparação com 2020, quando o país iniciava a luta contra uma doença ainda desconhecida.

A preocupação com aglomerações durante as festividades acionou um movimento coordenado do governo e empresas, reunindo esforços para incentivar as pessoas a ficar em casa. Funcionários são atraídos por bônus para permanecerem nas fábricas ou recebem vales de cinema, passeios e outros entretenimentos para não viajarem. Já o Banco Central chinês (PBoC) drenou em US$ 15 bilhões a liquidez do sistema financeiro, em um movimento pouco usual às vésperas do feriado - porém, de modo a reduzir o dinheiro circulante.

A safra de balanços também agita os mercados internacionais, mostrando o desempenho das empresas no ano da pandemia. Por ora, resultados decepcionantes, como da Apple e Tesla, pesam. O bilionário Elon Musk tenta mostrar que não um Eike Batista americano após a fabricante de veículos elétricos registrar o primeiro lucro anual da história. Porém, os ganhos reportados no quatro trimestre de 2020 decepcionaram e as ações da companhia caíram no after-hours em NY.

Nesta manhã, os índices futuros das bolsas de Nova York estão no vermelho, um dia após Wall Street amargar a pior sessão em três meses, abalado pelas declarações do atual presidente do Fed, Jerome Powell, de que o crescimento da economia norte-americana deve continuar sendo afetado pelo coronavírus. Ainda assim, ele reiterou o compromisso de prover liquidez no sistema financeiro, enquanto os EUA tentam resistir à pandemia, alimentando rumores sobre possíveis bolhas de ativos.

Dia de agenda cheia

Aliás, a primeira leitura do Produto Interno Bruto (PIB) do país ao final de 2020 deve apresentar um crescimento bem mais modesto que o salto de mais de 30% registrado no período anterior, vindo de um tombo de quase mesma magnitude no segundo trimestre. Os dados oficiais serão conhecidos às 10h30 e são o destaque da agenda do dia.

No mesmo horário, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos EUA. Depois, às 12h, é a vez dos indicadores antecedentes de dezembro e de dados sobre o setor imobiliário. Logo cedo, na zona do euro, tem a confiança do consumidor neste mês. No Brasil, merecem atenção o IGP-M e a confiança da indústria - ambos às 8h e referentes a janeiro, além de dados sobre o mercado de trabalho (Pnad e Caged), pela manhã (9h) e à tarde (15h).

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