Mercado local vira o jogo

18.11.2020 | Olívia Bulla

Avanço da segunda onda da covid-19 nos EUA e na Europa assusta investidor, mas Ibovespa e dólar aguardam impulso da pauta econômica para garantir rali de fim de ano

A possibilidade de uma vacina nos próximos meses e a maior previsibilidade política após as eleições presidenciais norte-americanas concentram as atenções do mercado financeiro. Mas a notícia de que a vacina chinesa CoronaVac é segura e induz imunidade ao coronavírus não empolga os negócios no exterior hoje, com o avanço da segunda onda de contágio da covid-19 na Europa e nos Estados Unidos ainda assustando os investidores.

Essa ameaça da doença lá fora não impediu que o Ibovespa avançasse mais ontem, com os investidores pessoa física animados pela volta dos “gringos”. Apenas nas duas primeiras semanas deste mês, os estrangeiros injetaram mais de R$ 15 bilhões na Bolsa, o que reduziu o déficit de capital externo no mercado secundário da renda variável doméstica para menos de R$ 70 bilhões, de quase R$ 90 bilhões negativos no início de outubro.

Se esse apetite pelas ações brasileiras continuar, o Ibovespa pode até terminar 2020 na casa dos 110 mil pontos (ou além), o que tende a aliviar a pressão sobre o dólar, em meio às remessas ao exterior típicas dessa época do ano. A moeda norte-americana encerrou ontem abaixo de R$ 5,35, no menor valor desde setembro, após o Banco Central indicar que pode atuar no mercado para atenuar o desmonte de posição defensiva (hedge).

Esse rali de fim de ano que parece se formar por aqui vai depender da sinalização vinda de Brasília, já que os negócios locais têm mostrado indiferença ao avanço da pandemia no país, que soma quase 170 mil mortes por covid-19. Os investidores querem mesmo saber é em relação ao avanço da pauta econômica no Congresso e aguardam o desenrolar do cenário político, passadas as eleições em muitas cidades do país. Mas ainda há dúvidas sobre qual será a postura do presidente Jair Bolsonaro, se favorável às reformas ou se apostará em um posicionamento mais populista.

Embora os partidos de centro-direita e direita tenham saído fortalecidos do pleito municipal, siglas da esquerda e de centro-esquerda tiveram desempenho melhor que o esperado. Ao mesmo tempo, o discurso da ‘nova política’ e do radicalismo perdeu capacidade de aglutinar eleitores. Com isso, o resultado das urnas sugere que a popularidade do presidente perdeu força, em especial nas capitais, o que pode dificultar os planos para 2022.

Por isso, embora a votação da PEC Emergencial, que define mecanismos de ajuste fiscal, do Pacto Federativo e do Orçamento do ano que vem sejam consideradas prioritárias para 2021, o foco dos investidores está nas discussões sobre a fonte de financiamento de um novo programa de transferência de renda. O senador Marcio Bittar deve apresentar ainda nesta semana o parecer que trata também da criação de um substituto do Bolsa Família.

Na linha d’água

Enquanto aguarda novidades no front político, os negócios locais monitoram o comportamento dos mercados internacionais, que mostram fôlego curto para avançar. Os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram na linha d’água, atentos à evolução dos casos diários de coronavírus nos EUA, às vésperas do feriado de Ação de Graças, na semana que vem, quando muitas pessoas viajam para reunir-se com familiares.

As principais bolsas europeias também titubeiam na abertura, diante da falta de direção definida em Wall Street e após uma sessão mista na Ásia, onde Tóquio caiu (-1,1%), mas Xangai (+0,2%) e Hong Kong (+0,5%) tiveram leves altas. Nos demais mercados, o dólar segue perdendo terreno para as principais moedas rivais, o que sustenta o barril do petróleo acima de US$ 40.

Dia de agenda fraca

A agenda econômica do dia reserva a segunda prévia deste mês do IGP-M (8h), que deve continuar apresentando leituras mensais “salgadas”, e os dados parciais do Banco Central sobre a entrada e saída de dólares (fluxo cambial) no país (14h30), que podem ajudar a mensurar se o expressivo ingresso de recursos estrangeiros na Bolsa brasileira neste mês representa a chegada de “dinheiro novo”.

Já no exterior, destaque apenas para a leitura final da inflação ao consumidor (CPI) na zona do euro no mês passado, logo cedo, e para os dados do setor imobiliário norte-americano em outubro (10h30). Também serão conhecidos os estoques semanais de petróleo bruto e derivados nos EUA (12h30).

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