Mercado se despede de agosto amparado pelo Fed

31.08.2020 | Olívia Bulla

Agosto termina hoje, mas muito do ajuste de fim de mês ocorreu na última sexta-feira, quando os investidores se afastaram do risco fiscal no Brasil e se apoiaram na nova estratégia de política monetária do Federal Reserve. A manutenção de juro zero nos Estados Unidos por um longo período, ainda que com mais inflação, promoveu uma corrida por ativos de risco no mundo, capaz de derrubar o dólar para perto de R$ 5,40 e sustentar o Ibovespa nos 100 mil pontos. 

E esse movimento pode ter continuidade nesta segunda-feira, em meio ao embelezamento de carteira após um agosto bem volátil. Essa volatilidade, aliás, tende a persistir ao longo de setembro, que começa amanhã trazendo já nos primeiros dias do mês dados sobre a atividade econômica e o mercado de trabalho pelo mundo, lançando luz sobre o ritmo da recuperação em um momento em que a pandemia de coronavírus completa seis meses.  

No fim de semana, o mundo ultrapassou a sombria marca de 25 milhões de infectados por covid-19 e quase 850 mil mortes. Juntos, EUA e Brasil são responsáveis por quatro em cada dez infecções da doença, contabilizando quase 10 milhões de casos e somando 35% do saldo total de vítimas desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia do novo coronavírus, em 11 de março. 

Portanto, a doença no mundo sequer foi superada, desafiando a retomada da atividade, do emprego e do consumo global, apesar da densa liquidez injetada pelos bancos centrais. Após a recuperação rápida e acentuada desde maio, vindo de um tombo recorde entre março e abril, a economia real nem alcançou os níveis pré-pandemia - portanto, de fevereiro - e já vem dando sinais de perda de tração depois da virada do semestre. 

Powell anima, China, não

Essa percepção reforça a tese de que a melhora da economia global se dará de forma errática e heterogênea entre os diferentes setores e países. E isso fica ainda mais evidente diante dos dados da China sobre a atividade nos setores industrial e de serviços em agosto. O índice dos gerentes de compras (PMI) da indústria oscilou em baixa, passando de 51,1 em julho para 51,0 em agosto, contrariando a previsão de alta a 51,2.

Já o PMI do setor de serviços subiu a 55,2, de 54,2, no mesmo período. É o sexto mês seguido que o PMI de ambos os setores segue acima da linha divisória de 50, que indica expansão da atividade. Ainda assim, a Bolsa de Xangai não conseguiu sustentar os ganhos exibidos durante a sessão e fechou em queda (-0,2%). Hong Kong também caiu (-0,7%), enquanto Tóquio se recuperou das perdas na última sexta-feira e subiu 1,1%. 

No fim do dia, saem os dados do Caixin sobre a indústria chinesa. No Ocidente, os investidores seguem animados pelas palavras suaves (“dovish”) do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, que colocou mais foco no combate ao desemprego do que no controle da inflação. Os sinais de progresso no desenvolvimento de uma vacina contra covid-19 também impulsionam os negócios. 

O presidente Donald Trump disse que uma vacina estará disponível antes da eleição presidencial, em 3 de novembro, mas sabe-se que o republicano está em campanha. Mesmo assim, os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram em alta, embalando a abertura do pregão europeu, que perde a principal referência da região, devido a um feriado no Reino Unido. O petróleo também avança, enquanto o ouro cai. 

Já o dólar mede força em relação aos rivais, com muitos resgatando o debate sobre o reinado do dólar como moeda de reserva global, que parece cada vez mais ameaçado. Afinal, a mudança de postura do Fed, que passou a aceitar um “viés inflacionário” nos EUA, ocorre em um momento em que muitos países passam a avaliar a emissão de moeda digital e excluem o dólar do comércio bilateral, sendo o caso China-Rússia o mais emblemático. 

Mas essa discussão sobre a perda de status do dólar não é de hoje e, por mais que esteja em risco, também é preciso levar em conta a crise das dívidas soberanas que se avizinha, após os pacotes fiscais lançados pelos governos ao redor do mundo como medida de combate dos impactos econômicos da pandemia. Aliás, termina hoje o prazo de entrega da proposta do Orçamento para 2021 ao Congresso Nacional. 

Semana tem PIB e payroll

A ver, então, como a equipe econômica vai fazer para manter a responsabilidade fiscal, respeitando a regra que impõe um “teto” ao aumento dos gastos no ano que vem, atendendo às demandas eleitorais e à pauta desenvolvimentista do presidente Jair Bolsonaro e da ala militar do Palácio do Planalto. Trata-se do grande destaque no front político, o que desloca o foco para a agenda de indicadores econômicos.

Os destaques ficam com os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no segundo trimestre deste ano. A expectativa é de que seja anunciados os piores números do PIB nacional de todos os tempos, com históricas leituras negativas de dois dígitos nas duas bases de comparação. O resultado oficial será conhecido amanhã, mostrando com mais precisão como o surto de covid-19 afetou a economia brasileira.

Já no exterior, as atenções se voltam para o relatório oficial sobre o mercado de trabalho nos EUA. A previsão para o chamado payroll é de forte desaceleração na geração de vagas, para cerca de 1 mil, após a abertura de quase 1,8 milhão de postos de trabalho em julho. Ainda assim, a taxa de desemprego deve oscilar para abaixo de 10%. O relatório da ADP sobre o emprego no setor privado, na quarta-feira, tende a calibrar essa expectativa.

Entre uma divulgação e outra, também merecem atenção dados sobre a atividade na indústria  e no setor de serviços nos EUA e na zona do euro, amanhã e quinta-feira, respectivamente. No Brasil, os dados da produção industrial serão conhecidos na quinta-feira. Nos próximos dias, também serão conhecidos dados sobre a inflação e o desemprego na região da moeda única, além do Livro Bege do Fed.

Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia: 

*Horários de Brasília

Segunda-feira: A semana começa trazendo apenas uma das tradicionais publicações do dia no Brasil, o relatório de mercado Focus, do Banco Central (8h25), já que os dados da balança comercial serão conhecidos apenas amanhã. No front político, a proposta de Orçamento para 2021 deve chegar ao Congresso Nacional até hoje. No exterior, o calendário econômico está esvaziado.

Terça-feira: Os números do PIB do Brasil são o destaque do dia, que traz também os dados de agosto da balança comercial. Na Europa e nos EUA, saem as leituras finais de agosto dos índices de atividade industrial. Também serão conhecidos dados sobre o desemprego e a inflação ao consumidor na zona do euro, além de números sobre o setor imobiliário norte-americano. 

Quarta-feira: Os dados da ADP sobre a criação de emprego no setor privado norte-americano são o destaque do dia, que traz também o Livro Bege do Federal Reserve. No Brasil e na zona do euro, saem o índice de preços ao produtor. Também serão conhecidos os dados semanais do fluxo cambial e sobre os estoques norte-americanos de petróleo, bem como as encomendas às fábricas nos EUA. No fim do dia, na China, sai o índice do Caixin sobre a atividade no setor de serviços. 

Quinta-feira: O desempenho da indústria nacional em julho é o destaque local, enquanto no exterior saem as leituras revisadas de agosto sobre a atividade no setor de serviços na zona do euro e nos EUA. Também serão conhecidos as vendas no varejo na região da moeda única, os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos EUA e o custo da mão de obra no país.

Sexta-feira: A semana chega ao fim trazendo como destaque apenas o relatório oficial sobre o mercado de trabalho nos EUA (payroll) em agosto, com os dados sobre a geração de vagas e a taxa de desemprego no país.

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