Mercado se prepara para a folia

08.02.2021 | Olívia Bulla

Comemorações pelo carnaval no Brasil e pela chegada do Ano Novo Lunar na Ásia paralisa mercado financeiro nos próximos dias

A semana que antecede as comemorações pelo carnaval e pela chegada do Ano Novo Lunar paralisa o mercado financeiro no Brasil e em vários países asiáticos nos próximos dias. A partir de quinta-feira, os investidores devem adotar uma postura defensiva, evitando maior exposição ao risco, uma vez que as principais praças do Ocidente vão funcionar normalmente, mas os negócios só voltam a operar a pleno vapor na reta final de fevereiro.

Para quem não se lembra, foi exatamente no pregão pós-carnaval em 2020, há pouco mais de um ano, que o mercado financeiro global sentiu o impacto da disseminação do coronavírus pelo mundo, entrando em uma forte onda de correção, que só foi interrompida com o Federal Reserve zerando a taxa de juros nos Estados Unidos e anunciando uma colossal injeção de recursos. A operação foi replicada por vários bancos centrais.

De lá para cá, essa liquidez sem precedentes tem sustentado os ativos de risco, independente dos sinais emitidos pela atividade. Desde então, o que se viu foi um descolamento do mercado financeiro, com os investidores em um ritmo frenético de oba-oba fora de compasso com a economia real. Tanto que a esperança de normalização econômica e social foi adiada para o segundo semestre, com as vacinas ganhando tração.

Por outro lado, é crescente o debate sobre o repasse do aumento de custos das empresas aos consumidores nos EUA, o que pode inflar os preços e exigir alguma ação do Fed. O temor de que a inflação ao consumidor norte-americano fique perto de 3% em meados deste ano, forçando uma redução dos estímulos monetários, é uma das justificativas para o avanço no juro projetado pelo título do país de 10 anos (T-note) para a faixa de 1,2%.

Outra explicação estaria associada à perspectiva de recuperação da maior economia do mundo e à injeção de quase mais US$ 2 trilhões via um novo pacote fiscal prometido pelo governo Biden, que já está em discussão no Congresso de maioria democrata. Por ora, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, tem deixado claro que é prematuro falar sobre drenagem de liquidez e que eventuais choques de preços são transitórios.

A ver, então, se o Fed não terá de fazer como o Banco Central brasileiro (Copom) que, depois de passar meses dizendo que os repiques inflacionários eram temporários, resgatou a cautela logo na primeira reunião deste ano, mostrando preocupação com a pressão sobre os preços no atacado e no varejo, que era deixada de lado até recentemente. De quebra, a perspectiva majoritária é de que a taxa básica de juros por aqui deve subir já em março.

Exterior Estimulado

Aliás, a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, tentou roubar a cena no domingo de Super Bowl na TV e manteve o tom suave (“dovish”) tão peculiar a ela desde que comandou o Fed entre 2014 e 2018. Em um talk show, Yellen afirmou que se o estímulo fiscal for aprovado, a condição de “pleno emprego” pode retornar ao país já no ano que vem. Do contrário, irá demorar até 2025. A ordem na Casa Branca é “agir rápido” e aprovar o pacote.

Ainda mais após os dados fracos sobre o mercado de trabalho no país, divulgados na última sexta-feira. Para os investidores, os números do payroll reforçam a necessidade de mais estímulos. Além disso, notícias de que o aumento de novos casos de coronavírus está diminuindo no mundo, ao mesmo tempo em que há progresso na distribuição de vacinas mantêm o otimismo de que a economia global deve se recuperar da pandemia neste ano.

O ritmo de crescimento da retomada econômica tende a ser conduzido pelas nações asiáticas, onde as principais bolsas fecharam em alta, em uma semana encurtada pelas festividades de ano-novo no calendário lunissolar. Destaque para os ganhos em Xangai (+1%) e em Tóquio (+2,1%). No Ocidente, também prevalece o sinal positivo, com os índices futuros das bolsas de Nova York embalando a abertura do pregão europeu.

Já no mercado de títulos, o rendimento do papel do Tesouro dos EUA de 30 anos (T-bond) subiu ao maior em um ano, ao passo que o juro projetado pela T-note segue firme na faixa de 1,20%. A curva implícita de juros futuros mostra que a percepção sobre a inflação nos EUA acelerou para o ritmo mais rápido desde 2014, em meio aos riscos por causa do tamanho dos estímulos. O dólar, por sua vez, mede forças em relação às moedas rivais.

Destaque ainda para o avanço do preço do barril de petróleo tipo Brent para além da faixa de US$ 60, pela primeira vez em mais de um ano, enquanto o barril do tipo WTI está ligeiramente abaixo dessa faixa, com a commodity subindo mais de 1% nesta manhã. A ver, porém, se esse comportamento irá ofuscar a decisão da Petrobras, de estender de três meses para um ano o período limite para reajuste nos preços dos combustíveis.

Brasil é Destaque na Agenda

Vários indicadores sobre atividade econômica doméstica em dezembro serão conhecidos a partir de quarta-feira, ilustrando o quadro sobre o tamanho do tombo do PIB em 2020. Antes dos dados sobre o desempenho do varejo e do setor de serviços, além do IBC-Br, amanhã é a vez da inflação ao consumidor (IPCA) neste início do ano.

Juntos, os números devem calibrar as expectativas em relação ao rumo da Selic. No front político, o radar segue concentrado em Brasília, onde o Congresso deve iniciar os trabalhos práticos após a definição dos novos comandos na Câmara e no Senado, com a instalação da comissão mista de Orçamento, amanhã.

Essa comissão deve dar início à discussão sobre uma nova rodada do auxílio emergencial. A proposta do governo seria de apenas três parcelas de R$ 200, com foco nos trabalhadores informais não atendidos pelo Bolsa Família, que seria obrigado a fazer curso de requalificação profissional. No dia seguinte, deve ocorrer a votação da autonomia do BC.

Depois, os dias de folia esvaziam a capital federal. No exterior, as festividades pelo Ano do Boi de Metal - animal que simboliza o trabalho duro e elemento que representa a criatividade - mantêm as principais bolsas asiáticas fechadas a partir de quinta-feira, com os negócios retornando apenas na semana que vem. Xangai só volta a funcionar no dia 18.

Antes da pausa, a China informa índices de preços no atacado e no varejo. Mas o calendário de indicadores e eventos econômicos lá fora está fraco, tendo como destaque a participação de Powell, do Fed, de um webinar sobre o emprego nos EUA, na quarta-feira. Será a oportunidade para ele explorar os temas em debate no mercado.

Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:

*Horários de Brasília

Segunda-feira: A semana começa com a agenda econômica mais fraca, trazendo apenas as tradicionais publicações domésticas, a saber, o relatório de mercado Focus (8h25), do Banco Central, e os dados de janeiro da balança comercial (15h).

Terça-feira: Dados de inflação no Brasil e na China estão em destaque. Durante a manhã, saem a primeira prévia de fevereiro do IGP-M e o índice oficial de preços ao consumidor brasileiro (IPCA) em janeiro. No fim do dia, a China informa os números sobre os preços ao produtor (PPI) e ao consumidor (CPI) no mês passado.

Quarta-feira: As atenções do dia se dividem entre as vendas no varejo brasileiro em dezembro e a participação do presidente do Fed, Jerome Powell, em evento sobre em Nova York o mercado de trabalho nos EUA.

Quinta-feira: As comemorações pela chegada do Ano Novo Lunar paralisam as bolsas de vários países asiáticos até a próxima semana. Entre os indicadores econômicos, no Brasil saem o desempenho do setor de serviços e uma nova estimativa da safra agrícola.

Sexta-feira: Novos indicadores domésticos de preços e sobre a atividade serão conhecidos, com a divulgação do primeiro IGP de fevereiro, o IGP-10 e do índice de atividade do BC em dezembro. No exterior, destaque para a prévia do índice de confiança do consumidor norte-americano.

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