Mercado tem ressaca após rodada extra de BCs

17.09.2020 | Olívia Bulla

A política monetária, sozinha, não consegue combater os impactos econômicos da pandemia - seja na atividade, na inflação e, principalmente, no emprego. Até aqui, os bancos centrais fizeram o possível, injetando uma liquidez sem precedentes no mercado financeiro, mas tais estímulos podem não ser suficientes para voltar aos níveis pré-coronavírus, em meio aos riscos e incertezas no cenário. 

Foi esse o recado dado ontem pelos bancos centrais dos Estados Unidos (Fed) e do Brasil (Copom), separadamente, após as decisões de manter suas respectivas taxas de juros perto de zero e em 2%. Mas enquanto o governo Trump tem espaço para lançar um novo pacote fiscal; aqui, a preocupação é com a sustentabilidade da dívida pública, diante da falta de entrosamento entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes.

O mercado doméstico começa a perceber a ausência de coordenação política e de uma boa execução da agenda de reformas, o que prejudica a dinâmica dos ativos locais. A sensação é de que o ajuste fiscal deve ser postergado, sem grandes mudanças estruturais, o que abala a confiança dos investidores. O que se vê, então, é só crescimento econômico fraco e depreciação cambial - com a política monetária podendo causar mais problemas. 

Ainda assim, o Copom deixou aberta uma fresta pequena para novos cortes na Selic, indicando que pode voltar a agir se a atividade não mostrar sinais firmes de recuperação, mas ponderando que vai depender de um eventual (não) repasse (pass through) dos efeitos da valorização do dólar nos preços do atacado para a inflação ao consumidor. O receio é de uma contaminação de toda a história e não só em relação ao teto dos gastos.

Com isso, por mais que o BC brasileiro tenha dado a entender ontem que não deve se mover, por ora, deixando o juro básico no piso histórico por um longo período, os investidores já vislumbram um início do ciclo de altas da Selic em um curto espaço de tempo. O processo de aperto monetário pode começar já no primeiro trimestre do ano que vem, a doses moderadas, em direção à normalização da taxa.

É a política!

Já nos EUA, o Fed deixou claro que a taxa norte-americana deve ficar próxima a zero ao menos pelos próximos três anos. Mais que isso, a autoridade monetária deve levar mais um ou dois anos depois de 2023 para iniciar o processo de normalização, ainda que o desemprego no país volte a ficar abaixo de 4% no período. Em outras palavras, a era dos juros baixos veio para ficar: acostume-se com isso.

Mas isso não significa que tal estratégia será suficiente. Para o presidente do Fed, Jerome Powell, um apoio fiscal direto pode ser necessário, uma vez que a autoridade monetária não pode “dar dinheiro a beneficiários em específico”, mas apenas fazer empréstimos, sendo que muitos cidadãos e empresas podem ter dificuldades em acessar o crédito ou mesmo pagar pelos recursos. Estímulos adicionais, portanto, seriam de outra natureza.

A mensagem tinha endereço certo: Avenida Pensilvânia, 1.400, onde está localizada a Casa Branca. O problema é que, logo ali, republicanos e democratas não conseguem chegar a um consenso sobre um novo pacote trilionário de auxílio emergencial, com o tema sendo contaminado pelas eleições majoritárias marcadas para daqui a dois meses. A falta de acordo pode levar a uma mudança de direção em Washington. 

Na virada de ontem para hoje, foi a vez do BC japonês (BoJ) anunciar sua decisão de juros. Em meio à troca de comando no país, com Yoshihide Suga tornando-se o primeiro-ministro, a autoridade monetária preferiu se abster em promover novidades, por ora. Ainda assim, a política econômica conhecida como “Abenomics” deve seguir em voga, até setembro de 2021, quando ocorre uma nova eleição no Japão.

Logo mais, às 8h, é a vez da decisão do BC inglês (BoE). E, da mesma forma, a questão política deve adiar qualquer mudança de estratégia, diante do risco crescente de uma separação litigiosa entre Reino Unido e União Europeia (UE), após o ultimato de Bruxelas ao primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Ele tem até o fim deste mês para desistir da quebra unilateral do acordo comercial com o bloco único da região.  

De ressaca

Em meio a esses eventos envolvendo os principais bancos centrais globais, os mercados internacionais amanheceram de ressaca. Os índices futuros das bolsas de Nova York exibem perdas aceleradas, de mais de 1%, o que contamina a abertura do pregão europeu, após uma sessão negativa na Ásia. 

Os investidores monitoram, agora, o Congresso dos EUA, que negocia um pacote de ajuda bipartidário, mas o impasse persiste. Nos demais mercados, o dólar mede forças em relação às moedas rivais, ganhando terreno frente às divisas de países desenvolvidos e correlacionadas às commodities. O petróleo cai com o barril do WTI abaixo de US$ 40.   

A ver, então, como será o desempenho do mercado doméstico diante do cenário externo mais avesso ao risco, tendo ainda a decisão do Copom para repercutir nos negócios locais. Ontem, o Ibovespa voltou a perder o nível dos 100 mil pontos, enquanto o dólar não conseguiu se aproximar da faixa de R$ 5,20 e os juros futuros embutiram prêmios.   

É bom lembrar que os mercados globais recuperaram boa parte das perdas registradas neste ano, após o colapso em março, quando a pandemia surgiu como um cisne negro. A recuperação dos ativos de risco foi impulsionada pela injeção colossal de recursos por parte dos principais BCs e governos, como forma de reavivar economias em dificuldades.

Esperanças de uma vacina contra o coronavírus também alimentaram o movimento. No entanto, a melhora dos mercados globais ocorreu de forma muito mais rápida e acentuada do que a da economia, provocando um descompasso entre o comportamento dos ativos e a atividade real.

Esse descolamento abre espaço para mais volatilidade e correções abruptas nos preços dos ativos, com a recuperação econômica total parecendo só ser possível quando as pessoas se sentirem seguras para voltar a se engajar em uma ampla variedade de serviços. Ao mesmo tempo, os desempregados e mais vulneráveis à pandemia demandam apoio adicional, após a perda dos benefícios emergenciais.

Agenda cheia nos EUA

Entre os indicadores econômicos, a agenda desta quinta-feira começa cedo, com a leitura final do índice de preços ao consumidor (CPI) na zona do euro em agosto. No fim do dia, é a vez do CPI no Japão referente ao mesmo período. Pela manhã (9h30), nos EUA, saem dados sobre a construção de moradias no mês passado, os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país e o índice regional de atividade em Chicago neste mês.

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