Mercado tem ressaca na volta do feriado

26.01.2021 | Olívia Bulla

Acúmulo de notícias negativas durante o fim de semana prolongado deve pressionar ativos locais, com aversão ao risco no exterior potencializando as perdas

O mercado financeiro volta do fim de semana prolongado na cidade de São Paulo “de ressaca”, ainda sentindo os impactos da grave realidade brasileira nos ativos de risco. A renúncia ontem do presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Júnior, complica a privatização da estatal e soma-se à coleção de problemas no país que têm atrapalhado os investidores em curar o mal-estar local com a liquidez global e mais estímulos nos Estados Unidos.

Se bem que, o pacote de US$ 1,9 trilhão anunciado pelo recém-empossado presidente dos EUA, Joe Biden, encontrou resistência bipartidária, apesar da “onda azul” formada no Congresso norte-americano, com maioria democrata na Câmara e no Senado. Biden se disse “aberto para negociar”, mas as esperanças de uma aprovação rápida diminuíram, ficando para meados de março, e sujeito a alterações à ajuda voltada às pessoas físicas.

O Congresso hesitante nos EUA levantou dúvidas sobre quanto do plano será aprovado e resgatou a aversão ao risco no exterior, deixando Wall Street de lado, porém em nível recorde, e fortalecendo o dólar ontem. Aqui, a moeda norte-americana encerrou o pregão esvaziado pelo feriado na capital paulista na faixa de R$ 5,50. E o ambiente internacional continua desfavorável hoje, o que tende a elevar a pressão sobre os negócios locais.

Os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram no vermelho, um dia após os S&P 500 e o Nasdaq fecharem em máximas históricas, liderados pelas Big Tech, enquanto o Dow Jones foi pressionado pelas ações do setor financeiro e energia. Especialistas avaliam que a rotação cíclica dos papéis volta a prevalecer nos negócios, com os investidores antecipando um boom econômico neste ano.

Porém, a relutância do Congresso dos EUA em relação a mais um alívio trilionário, após aprovar US$ 900 bilhões em dezembro, pesa nos negócios nesta manhã, contaminando também a abertura do pregão europeu. Na Ásia, as principais bolsas fecharam no vermelho, com fortes perdas em Hong Kong (-2,6%) e em Xangai (-1,5%), com os investidores ainda nervosos com os números da pandemia, em meio ao atraso na vacinação em vários países.

Nos demais mercados, o juro projetado pelo título norte-americano de 10 anos (T-note) afundou para 1,04%, afastando-se ainda mais da marca de 1,10%, ao passo que o dólar mede forças em relação às moedas rivais, ganhando terreno em relação aos pares emergentes do real e as divisas de países desenvolvidos. O petróleo, por sua vez, cai, mas segue na faixa de US$ 52 por barril.

Coleção de problemas

Esse comportamento lá fora tende a ser potencializado por aqui, diante da situação delicada em que o Brasil se encontra, com um acúmulo de problemas do ponto de vista político, econômico e social. Os acontecimentos do fim de semana deterioraram o cenário doméstico, com a renúncia de Wilson Ferreira Júnior da presidência da Eletrobras, motivada, segundo ele, pela “quebra de perspectiva” de privatização da empresa.

Na última sexta-feira, as ações da estatal elétrica caíram 6%, reagindo à declaração do candidato favorito à presidência do Senado, Rodrigo Pacheco, de que a venda da Eletrobras ao setor privado não é prioridade. Hoje, os papéis devem ter uma nova rodada de queda na Bolsa. Em Nova York, o principal índice que espelha as ações do Ibovespa, o EWZ, encerrou em baixa de 1,7%, com as perdas lideradas por Eletrobras (-10,5%).

Mas a reação negativa não é exclusividade da renda variável. Diante do risco iminente de furo no “teto dos gastos” e da morosidade no andamento da agenda de reformas no Congresso, que passa por uma sucessão em fevereiro, a dificuldade em privatizar a Eletrobras tende a pressionar o dólar e a curva de juros. A isso, soma-se a seriedade da covid-19 no país e a crise das vacinas, que motivaram carreatas organizadas por apoiadores de esquerda e de direita no fim de semana, podendo minar os números sobre a popularidade do presidente Jair Bolsonaro.

Apesar da chegada dos primeiros lotes da vacina de Oxford, vindos da Índia, e da liberação de insumos da China para a fabricação da CoronaVac no Brasil, o cenário doméstico segue desafiador. O ministro Paulo Guedes até defendeu a vacinação em massa para garantir a retomada do crescimento econômico, que pode voltar a ser negativo neste trimestre, mas o risco atual é de mais um ministro da Saúde cair, por causa do colapso em Manaus.

No jogo do bicho, há dúvidas se Eduardo Pazuello é “bode expiatório” ou “boi de piranha”. Diante dessa coleção de problemas, Bolsonaro pode ser instigado a adotar medidas mais populistas, como uma nova rodada do auxílio emergencial para socorrer os mais atingidos pela pandemia, reforçando as apostas de que o presidente é um “parasita das iniciativas alheias”, capitalizando conquistas de adversários políticos como se fossem suas. O governador Joao Doria deu o nome de "oportunista".

Embora o benefício seja importante para dar ritmo à atividade, estimulando o consumo, aos olhos do mercado financeiro, a extensão do auxílio é vista como uma ameaça ao “teto dos gastos”. E uma mudança no regime fiscal combinada com melhora da renda de parte da população tende a manter a pressão sobre os preços, levando o Banco Central a subir os juros antes do esperado.

Ata do Copom hoje, Fed amanhã e PIB dos EUA na 5ª

Aliás, a última semana de janeiro está repleta de indicadores e eventos econômicos importantes, a começar pela divulgação da ata da primeira reunião deste ano do Comitê de Política Monetária (Copom), logo mais (8h). No encontro, o BC manteve a comunicação dura (“hawkish”), apesar de manter a taxa básica de juros em 2,00% pela quarta vez seguida, ao retirar a orientação futura (forward guidance) de Selic estável.

Porém, a autoridade monetária salientou que a decisão não implica, mecanicamente, um aperto nos juros básicos na reunião seguinte, chamando a atenção para o comportamento da inflação, da atividade e da questão fiscal, em meio ao cenário ainda grave da pandemia no país. O documento tende a calibrar as expectativas em relação ao momento exato da primeira alta da Selic neste ano.

Para tanto, a prévia deste mês da inflação oficial ao consumidor (IPCA-15), a ser conhecida pouco depois da divulgação da ata, às 9h, também merece atenção, pois pode indicar se o recente aumento dos preços no varejo segue persistente. Já no exterior, o calendário norte-americana ganha destaque amanhã, quando o Federal Reserve reúne-se pela primeira vez neste ano, já com a Casa Branca sob nova direção.

Mais que a decisão de juros em si, o foco estará na coletiva de imprensa do presidente do Fed, Jerome Powell, que deve reforçar a necessidade de estímulos fiscais, ainda mais agora que sua antecessora, Janet Yellen, foi aprovada para comandar o Tesouro dos EUA. No dia seguinte, ainda por lá, serão conhecidos os números preliminares do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no último trimestre de 2020, que devem mostrar desaceleração.

Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:

*Horários de Brasília

Terça-feira: A volta do feriado na cidade de São Paulo conta com uma agenda doméstica carregada de divulgações relevantes. Logo cedo, às 8h, o Banco Central publica a ata da reunião da semana passada do Copom. No mesmo horário, a FGV publica o índice de confiança do consumidor e do setor da construção civil em janeiro, além dos custos da construção neste mês. Em seguida, às 9h, é a vez da prévia de janeiro da inflação oficial ao consumidor brasileiro (IPCA-15). No exterior, o calendário está mais fraco, trazendo dados dos EUA sobre a confiança do consumidor (12h) e o setor imobiliário (11h).

Quarta-feira: A decisão de política monetária do Federal Reserve é o destaque do dia, seguida de uma entrevista coletiva do presidente do Fed, Jerome Powell. Entre os indicadores econômicos, saem os pedidos de bens duráveis nos EUA em dezembro. No Brasil, será conhecida mais uma sondagem da FGV, desta vez, do comércio. Além disso, o BC publica a nota do setor externo em dezembro e os dados semanais do fluxo cambial, enquanto o Tesouro divulga o relatório da dívida pública.

Quinta-feira: A agenda econômica segue repleta de indicadores econômicos de peso. Por aqui, merecem atenção o IGP-M, a confiança da indústria - ambos referentes a janeiro, além de dados sobre o mercado de trabalho (Pnad e Caged). Lá fora, destaque para a primeira estimativa do PIB dos EUA no trimestre passado, além dos pedidos semanais de auxílio-desemprego. Na zona do euro, saem dados sobre a confiança do consumidor neste mês.

Sexta-feira: A semana chega ao fim se despedindo também do primeiro mês de 2021, trazendo dados sobre a confiança no setor de serviços no Brasil, os preços ao produtor (IPP) e sobre a confiança do consumidor norte-americano. Também serão conhecidos os dados sobre a renda pessoal e os gastos com consumo nos EUA em dezembro.

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