Mercado testa fôlego para ampliar rali

21.10.2020 | Olívia Bulla

A volta do Ibovespa à faixa dos 100 mil pontos depois de um mês e a resiliência do dólar na marca de R$ 5,60 ontem podem ter sido a melhor marca do rali do mercado doméstico, diante da ainda delicada situação fiscal no país. O recente alívio nos ativos locais devolveu boa parte do pico do nervosismo, na virada para outubro, quando o governo propôs uma “pedalada” nas contas públicas para bancar um novo programa social. 

Por mais que o governo tenha feito discursos mais austeros, a favor do rigor fiscal e enfatizando a agenda de reformas, a questão ainda precisa ser endereçada. E não se sabe qual será o consenso no Congresso em relação ao Orçamento de 2021 nem qual será a proposta do Palácio do Planalto para criar o Renda Cidadã. As incertezas persistem e não foi apresentada nenhuma solução eficiente, como corte de gastos. 

Outro ponto de preocupação são as condições de financiamento da dívida pública. Em meio às dificuldades do Tesouro Nacional de rolar as obrigações de curto prazo, o BNDES deve antecipar o pagamento de recursos, devolvendo cerca de R$ 100 bilhões à autarquia e, com isso, reforçar o caixa e ajudar o Tesouro na gestão da dívida. Esse montante refere-se a empréstimos do banco de fomento para mitigar efeitos ainda da crise de 2008.

Com as finanças no vermelho, é difícil ver uma recuperação sustentável por aqui. O movimento recente parece ter sido mais uma recuperação do mercado de baixa (bear market rally), diante dos níveis atrativos, do que uma reversão (ou nova) tendência. Os negócios locais seguem sob pressão, ainda que a liquidez global sem precedentes impeça uma forte correção nos preços. Foi o melhor momento para os “touros” (bull market). 

Até porque, no curto prazo, o mercado financeiro global entra em um período de elevada incerteza. Sem acordo entre republicanos e democratas em torno de um novo pacote fiscal nos Estados Unidos, a proximidade das eleições norte-americanas e o avanço do contágio da covid-19 na Europa deixam os investidores reféns pelos próximos dias e semanas. A maior preocupação é o que pandemia ainda pode causar à recuperação econômica global.

Aliás, no Brasil, chama a atenção o fato de a queda no total de casos confirmados está sendo acompanhada da redução de testes diagnósticos de covid-19, dando a falsa sensação de que a doença está perdendo força no país. Dados preliminares do Ministério da Saúde indicam que foram feitos 11,5% testes a menos em setembro em relação a agosto, e o alerta é de que a taxa de resultados positivos segue em alta.  

Dia da marmota

Lá fora, os investidores tentam manter as esperanças em relação a um acordo de estímulos nos EUA. A dúvida agora é o Senado, que segue contrário à proposta democrata de um pacote vultuoso, na faixa de US$ 2,2 trilhões. O secretário do Tesouro norte-americano, Steven Mnuchin, afirma que a oferta será de US$ 1,8 trilhão, enquanto a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, espera que os novos gastos sejam retroativos.

Diante do impasse, os índices futuros das bolsas de Nova York alternam altas e baixas nesta manhã, monitorando também a diminuição da vantagem do candidato Joe Biden em relação ao presidente Donald Trump na corrida eleitoral, conforme pesquisas mais recentes. A disputa pela Casa Branca parece mais aberta do que o cenário no início do mês indicava, deixando incerto o resultado do pleito em novembro.

Já na Europa, prevalece o sinal negativo, em meio às preocupações com o aumento de casos de coronavírus na região. Na Espanha, as autoridades estão considerando adotar toque de recolher, o que ecoaria os esforços vistos em outros países na luta contra a expansão de contágio da covid-19. Para a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, o risco de uma segunda onda não é um bom presságio.

Na Ásia, o pregão foi misto, com altas em Hong Kong (+0,8%) e Tóquio (+0,3%), mas leves baixas em Xangai (-0,1%). Nos demais mercados, o dólar tem queda generalizada, influenciado pelo avanço do juro projetado pelo título dos EUA de 10 anos (T-note), em meio ao otimismo com as negociações em Washington, com os investidores apostando 100% de certeza de que um acordo será alcançado antes da eleição.       

Agenda segue fraca

Mais um dia de agenda econômica sem destaques. Por aqui, saem dados prévios deste mês sobre a confiança da indústria (8h) e a entrada e saída de dólares (fluxo cambial) do país (14h30). No exterior, o calendário norte-americano traz os estoques semanais de petróleo e derivados (11h30) e o Livro Bege do Federal Reserve (15h). Na safra de balanços, será conhecido o resultado trimestral da Tesla.

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