O cala a boca da Petrobras

25.02.2021 | Olívia Bulla

Estatal petrolífera divulga lucro bem acima do esperado em 2020, tornando difícil justificativa de Bolsonaro para troca de comando na empresa

Mais uma proposta de privatização, desta vez, dos Correios, foi entregue ontem pelo presidente Jair Bolsonaro ao Congresso, assoprando com mais força para ver se passa o mal-estar causado no mercado financeiro após a “mordida” na Petrobras. Até porque vai ser difícil explicar a troca de comando na estatal petrolífera após o salto de 634% no lucro da empresa no quarto trimestre, suficiente para garantir um ganho de R$ 7,1 bilhões no acumulado de 2020, revertendo toda a baixa contábil reportada no início do ano passado.

O resultado ficou bem acima do esperado pelo mercado, que previa prejuízo de R$ 48 bilhões em 2020 e lucro de apenas R$ 4,8 bilhões no último trimestre do ano passado, bem abaixo dos ganhos de R$ 59,89 bilhões anunciados ontem à noite. Segundo a Petrobras, esse número muito acima de qualquer projeção deve-se à reversão de impairment (deterioração de ativos na contabilidade) de R$ 31 bilhões, ganhos cambiais de R$ 20 bilhões e reversão de gastos decorrentes de obrigações futuras, em R$ 13,1 bilhões.

Seja como for, a teleconferência da estatal petrolífera hoje pela manhã (10h) promete “pegar fogo”. Afinal, o ainda presidente da companhia, Roberto Castello Branco, não esconde a indignação com a forma como vem sendo tratado publicamente por Bolsonaro - ao mesmo tempo em que o ministro Paulo Guedes (Economia), que indicou ele ao cargo, segue mudo. A expectativa é de que o executivo participe da call de apresentação dos resultados, falando também acerca da estratégia da empresa.

Portanto, o pregão na Bolsa brasileira tende a ser agitado hoje. Só pelo resultado surpreendente, a ação da Petrobras tende a manter a trajetória de recuperação vista desde terça-feira, um dia após o tombo recorde de 20% dos papéis. Mas é difícil dizer se esse movimento é consistente, uma vez que a empresa vem sofrendo ingerência política e o governo possui maioria entre os membros do Conselho para aprovar a indicação de Bolsonaro, substituindo Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna.

Se for confirmada, Castello Branco sai do cargo “de alma lavada”. Mas, em bom português, o termo pode ser outro. Afinal, a decisão do presidente da República ocorreu em um momento em que a demora na aprovação de um novo pacote de auxílio emergencial e o atraso na vacinação da população resultaram na queda de popularidade Além disso, Bolsonaro vinha sendo pressionado pelos caminhoneiros em relação à política de preços da estatal, ficando claro o caminho populista que vem sendo adotado, de olho em 2022.

Essa postura do governo tende a afetar negativamente a situação já grave das contas públicas, elevando a preocupação dos investidores, pois pode ter como consequência resultados desastrosos, como valorização adicional do dólar, inflação mais alta e perda de tração da economia, ao mesmo tempo em que a Selic também tende a subir. Aliás, o mercado doméstico dá como certa uma alta da taxa básica de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no mês que vem, sendo que é crescente a chance de aumento de meio ponto, diante do acúmulo de riscos inflacionários e fiscais.

Em debate

Lá fora, o avanço do rendimento (yield) do título norte-americano de 10 anos (T-note) para além da marca de 1,40% continua encurtando o fôlego de alta de Wall Street. Os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram sem direção única, mas essa indefinição dos mercados no exterior não deve prejudicar o comportamento da Bolsa local. Os investidores ainda debatem o tema da “reflação”, que recebeu impulso do Federal Reserve nesta semana, após o presidente Jerome Powell não se mostrar nenhum pouco incomodado com uma eventual alta dos preços ao consumidor.

Segundo ele, qualquer aceleração da inflação nos próximos meses será transitória, incapaz de inibir a recuperação da economia dos Estados Unidos, que ainda precisa de estímulos monetários e fiscais para emergir dos danos causados pela pandemia. Portanto, por mais que os ativos de risco não consigam suportar yields mais elevados, Powell tentou esclarecer que o movimento dos títulos norte-americanos (Treasuries) reflete mais o otimismo em relação ao crescimento econômico do que um temor com a “reflação”.

É como se, finalmente, as Treasuries estivessem alcançando a perspectiva mais otimista já embutida nos preços das ações. A dúvida é se o rendimento dos bônus dos EUA podem subir ainda mais para, então, começar a se tornar um obstáculo para o apetite por risco. Mas com a disseminação do coronavírus perdendo força no mundo - com exceção do Brasil - combinada com a demanda do consumidor ainda reprimida e mais estímulos a caminho fica difícil reverter um cenário mais favorável para a economia global ainda neste ano.

Por isso, os investidores migram o apetite pelas ações para as commodities, alimentando expectativas de aumento da demanda por insumos básicos. O barril do petróleo segue avançando na faixa de US$ 60, ao passo que o dólar perde terreno de forma generalizada em relação às moedas rivais. Nas demais bolsas, o sinal positivo prevaleceu na Ásia, com altas de mais de 1% em Hong Kong e Tóquio, animando a abertura do pregão europeu.

Agenda segue carregada

O calendário econômico desta quinta-feira segue repleto de divulgações relevantes. Por aqui, merece atenção o resultado de fevereiro do IGP-M, que deve desacelerar levemente em relação a janeiro, mas seguir com uma taxa “salgada”, com alta mensal de 2,2%. Com isso, o indicador deve acumular alta de quase 30% em 12 meses.

Os dados efetivos serão conhecidos às 8h, quando também sai o índice de confiança do comércio neste mês. Ainda pela manhã (9h30), o Banco Central publica a nota com os dados sobre as operações de crédito em janeiro. À tarde (14h30), o Tesouro Nacional divulga o resultado das contas públicas no mês passado.

No exterior, a zona do euro informa, logo cedo, o índice de confiança do consumidor neste mês. Ao longo da manhã, nos EUA, saem os pedidos de bens duráveis em janeiro e as solicitações semanais de seguro-desemprego, ambos às 10h30. Ainda neste horário, merece atenção a segunda leitura do Produto Interno Bruto (PIB) do país ao final de 2020. Depois, às 12h, tem ainda novos números sobre o setor imobiliário norte-americano.

*Comunicamos que, por motivo de força maior, A Bula do Mercado deixará de ser publicada a partir de março, por tempo indeterminado. Agradecemos pelos seis anos de apoio.

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