O risco da canetada

25.02. 2021 | Renata Machado – Jornalista Chefe Deep Discover Market

Investir em estatal não é para amadores. Além dos riscos implícitos a qualquer companhia listada em bolsa, colocar dinheiro em empresas controladas pelo governo envolve considerar um fator extra inerente a elas: o risco da canetada. E ele pode ser intempestivo, devastador. De um dia para o outro, ou de uma hora para outra, a empresa sofre um revés porque o presidente da República decidiu dar uma canetada. E não importa quem esteja ocupando a cadeira da Presidência, seja o FHC, a Dilma, o Bolsonaro ou o próximo que vier, esse risco vai existir.

No modelo estatal de economia mista, é o governo quem tem a palavra final. E o governo, como se sabe, tem outras preocupações que não “somente” visar o lucro das empresas. Quando a corda aperta na questão política, o acionista controlador tende a interferir na estatal em “prol da população”, mas em desfavor da empresa, que acumula prejuízos que depois serão pagos pela mesma população que o governante, em teoria, quis beneficiar. É uma reação em cadeia que geralmente acaba mal.

Apesar dos reveses no passado recente da Petrobras, havia motivos para acreditar que a petrolífera estava menos vulnerável. A Lei das Estatais e mudanças no próprio Estatuto da empresa estabeleceram regras mais rígidas para proteger a companhia de ingerências políticas; o atual presidente, Roberto Castello Branco, foi indicado por um governo que se diz liberal na economia; e a política de preços está seguindo o mercado internacional, mesmo que com certa defasagem. Lições do passado, porém, podem ser esquecidas, relativizadas e repetidas.

Bastou uma declaração de Jair Bolsonaro nesse sentido para chacoalhar o mercado. “Alguma coisa vai acontecer na Petrobras nos próximos dias”, disse o presidente durante uma live em rede social. A frase com ares enigmáticos num dia e a canetada do governo no outro, com a indicação do general da reserva Joaquim Silva e Luna para a presidência da Petrobras, fizeram o fantasma da interferência ressurgir. Em dois dias de pregão, as ações derreteram 27% e a empresa perdeu mais de R$ 100 bilhões em valor de mercado. Junto com ela, muitos investidores perderam dinheiro, inclusive pessoas físicas que fugiram da poupança nos últimos anos.

É histeria do mercado, apontam alguns. Acontece que a declaração foi dada na sequência de críticas de Bolsonaro aos reajustes anunciados pela Petrobras nos preços da gasolina e do diesel, classificados como “excessivos” e “fora da curva”. Apesar de afirmar e repetir que “jamais vamos interferir nessa grande empresa na sua política de preço”, “não posso interferir, nem iria interferir na Petrobras”, ao mesmo tempo o presidente emitiu sinais opostos. “Se bem que alguma coisa vai acontecer”, “você tem que mudar alguma coisa”, “o povo não pode ser surpreendido com certos reajustes”, disse ele. E a ação que se seguiu foi o anúncio da troca de comando da empresa. Sai um economista e entra um militar.

O contexto levou a um temor de déjà vu. A contenção de preços de combustíveis no governo Dilma resultou em prejuízo bilionário, aumento do endividamento e redução dos investimentos. Quem quer ser sócio de uma empresa com essa perspectiva?

O mesmo pavor tomou conta dos acionistas da Eletrobras após Bolsonaro ameaçar “meter o dedo na energia elétrica”. O alerta de risco da canetada se acendeu e as ações da estatal chegaram a cair mais de 9% na segunda-feira. De novo, o medo de déjà vu. A redução artificial nas contas de luz no governo Dilma gerou uma fatura de mais de R$ 62 bilhões, que anos depois ainda é paga pelos brasileiros.

O estrago na Eletrobras foi contornado depois que surgiram notícias de que o presidente deveria enviar ao Congresso uma medida provisória para diminuir a participação da União na empresa. Uma sinalização para acalmar o mercado. E acalmou. As ações da empresa se recuperaram no mesmo dia e fecharam em leve queda.

Os acionistas do Banco do Brasil, outra estatal listada em bolsa, também foram assombrados pelo poder da caneta e o risco que ela representa. Ruídos de que Bolsonaro iria aproveitar o momento para fazer com André Brandão, presidente do BB, o mesmo que fez com Castello Branco na Petrobras ecoaram no mercado. Resultado: as ações do banco despencaram 11,65%.

Quem decide investir em estatal tem de estar consciente de que as ações estão sujeitas a dedos e mãos de governantes. Incerteza gera desconfiança. Mesmo que seja só turbulência temporária, quem não tem dinheiro suficiente ou até mesmo sangue frio para aguardar os fatos e o ajuste real da situação, já tomou prejuízo. Basta uma canetada e o estrago está feito.

4 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo