Rali do mercado perde força

04.02.2021 | Olívia Bulla

Ativos de risco interrompem sequência de alta no início de fevereiro, em meio às incertezas políticas nas negociações entre governo e Congresso

Nada como um dia após o outro. Depois de encerrar janeiro no vermelho, o Ibovespa conseguiu, apenas nos três primeiros pregões deste mês, anular a queda de mais de 3% acumulada no mês passado e ainda ficar com um ligeiro saldo positivo neste início de ano. Ventos favoráveis vindos de Brasília conduziram o movimento, mas o ambiente internacional também ajudou. Hoje, porém, o rali dos ativos de risco perde força lá fora.

Os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram com leves baixas, após Wall Street registrar ontem o melhor desempenho em dois dias em quase três meses. As bolsas europeias também oscilam em queda, enquanto na Ásia prevaleceu o sinal negativo. Já o petróleo supera a marca de US$ 55 por barril, apesar do dólar forte, que acompanha o avanço do rendimento (yield) do título norte-americano de 10 anos (T-note) para 1,14%.

Os investidores fazem uma pausa no apetite por risco, com as atenções divididas entre a temporada de balanços das empresas ao final de 2020 e os sinais mistos vindos dos Estados Unidos, onde a recuperação econômica ainda titubeia e o governo Biden enfrenta obstáculos para aprovar uma proposta de estímulos adicionais na ordem de US$ 1,9 trilhão. A dúvida, então, é se os preços dos ativos não estariam refletindo um otimismo exagerado, em meio ao cenário pandêmico ainda grave.

Presente de russo

Essa questão também é pertinente ao mercado doméstico, uma vez que os investidores deram como certos o andamento da agenda de reformas e a manutenção do ajuste fiscal após a vitória de candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro para o comando da Câmara e do Senado. Por mais que haja uma disposição de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco em avançar com a agenda da equipe econômica, sabe-se que o governo pagou por isso.

E a conta pelo resultado das eleições legislativas ainda inclui a nomeação de indicados para cargos dentro do Executivo, o que deve ser acompanhada de uma minirreforma ministerial, com a recriação de alguns ministérios. Mas isso, somada à volumosa liberação de recursos a emendas parlamentares, não significa que a “lista de desejos” do ministro da Economia, Paulo Guedes, será atendida. Como diria Garrincha, “falta combinar com os russos”.

Os dois poderes precisam chegar a um consenso sobre como enfrentar os problemas de curto prazo, relacionados principalmente à nova rodada do auxílio emergencial, para que as propostas de longo prazo de Guedes e companhia possam colocar o Brasil de volta aos trilhos do crescimento. O primeiro desafio a ser superado é a votação do Orçamento de 2021, abrindo caminho para a votação de outras medidas também urgentes.

Será, portanto, o teste de fogo. A expectativa do Executivo é de que a aprovação da lei orçamentária deste ano ocorra até o mês que vem. E o mais importante é que o Orçamento seja aprovado sem “surpresas”, deixando para depois a discussão sobre remanejamento ou corte de recursos de determinadas áreas para permitir a criação de um programa social de transferência de renda ou a extensão do benefício aos mais vulneráveis.

Tudo vai depender da articulação política no Congresso e do papel de Bolsonaro, que abriu as portas do Palácio do Planalto aos partidos do Centrão, visando a reeleição em 2022. No entanto, o presidente terá de mostrar qual é a estratégia do governo para os últimos dois anos de mandato e o que ele quer politicamente, além de se reeleger, pois a pressão por aumento dos gastos públicos será forte e não se sabe se o compromisso fiscal é para valer.

BC inglês em destaque

A decisão de política monetária do Banco Central da Inglaterra (BoE), a primeira desde o Brexit, é o destaque do dia. O anúncio será feito às 9h, mas não se espera nenhuma alteração na taxa de juros. No mesmo horário, sai o Relatório Trimestral de Inflação do BC inglês, com as projeções para a economia britânica.

Entre os indicadores econômicos, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos EUA e também dados preliminares sobre o custo da mão de obra e da produtividade no quarto trimestre de 2020, ambos às 10h30. Depois, às 12h, é a vez das encomendas às fábricas norte-americanas em dezembro.

Logo cedo, na zona do euro, tem o desempenho das vendas no varejo em dezembro. No Brasil, a agenda econômica segue fraca, trazendo apenas o saldo e a movimentação na poupança em janeiro (15h).

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