Segunda onda da covid-19 põe em xeque recuperação em “V”

28.10.2020 | Olívia Bulla

O agravamento da pandemia nos Estados Unidos e na Europa volta a formar uma onda vendedora (sell-off) nos ativos de risco hoje, em meio à preocupação com o impacto econômico da disseminação de coronavírus nessas regiões. A segunda onda de contágio da covid-19 mostra que o mercado financeiro estava errado, colocando em xeque o cenário de recuperação em “V” e elevando as chances de um duplo mergulho da atividade, sob a forma de “W”, deixando a sensação de uma longa e aguda recessão.

E isso exige uma correção nos preços dos ativos, evidenciando os sinais de formação de uma bolha, principalmente no mercado de ações. Wall Street estaria comandando o movimento, já que o índice S&P 500 e a bolsa eletrônica Nasdaq estão a apenas 5% dos níveis recordes de alta, alcançados em fevereiro, sendo que os índices Nasdaq-100 e Nasdaq Composto acumulam ganhos ao redor de 30% neste ano. 

Nesta manhã, os índices futuros das bolsas de Nova York caem mais de 1%, com os alertas de que o democrata Joe Biden deve derrotar o presidente Donald Trump nas eleições também pesando. Já o dólar avança de forma generalizada, o que prejudica o petróleo, cujo preço do barril testa os US$ 40, mas o ouro está estável.

Na Europa, as bolsas abriram com queda acelerada, de até 3%, enquanto na Ásia só Xangai subiu (+0,5%). Afinal, a recuperação econômica na China segue em curso, voltando aos níveis pré-pandemia, após a eficácia do governo no combate ao surto da doença logo no início do ano, com as medidas de controle ainda vigentes em todo o país.

Essa redução da exposição ao risco nos mercados internacionais deve pressionar os negócios locais, um dia após o dólar fechar nos maiores níveis desde meados de maio, próximo ao nível de R$ 5,70, enquanto o Ibovespa voltou a perder a faixa dos 100 mil pontos, uma semana depois de ter conseguido reaver essa marca simbólica. Por aqui, o melhor do dia ficou para após o fechamento do pregão.  

Copom e balanços em destaque

A temporada de balanços traz os resultados dos pesos-pesados Bradesco, Vale e Petrobras, no fim da tarde de hoje. No mesmo período, sai a decisão sobre a Selic e os investidores querem saber se o Comitê de Política Monetária (Copom) irá manter a postura suave (“dovish”) em relação à taxa básica de juros ou se o acúmulo de riscos inflacionários e fiscais mudará o tom do Banco Central, adotando uma comunicação dura (“hawkish”). 

A decisão não será fácil. O fato é que o Copom terá de alterar a linguagem ao manter a Selic em 2% hoje, mas com cuidado, para não arranhar a credibilidade. Por isso, o mercado financeiro acredita que o BC deve ajustar a prescrição futura (forward guidance) para a política monetária e retirar do discurso a brecha deixada para um corte adicional, fechando a porta em definitivo. 

Ainda assim, tais alterações não devem ser vistas como uma atitude mais conservadora. Mais prudente, apenas. Um Copom agressivo só seria percebido se o BC deixasse claro que deve começar a subir a Selic em breve - o que não deve acontecer agora. O mercado financeiro já dá como certo um ciclo de alta do juro básico, que pode começar antes do esperado e a um ritmo mais intenso.

Mas a autoridade monetária deve esperar para confirmar essa aposta dos investidores, ficando mais dependente de avanços na política do que na esfera econômica. Afinal, o BC sabe que se a agenda de reformas não andar e a regra fiscal do “teto dos gastos” for descumprida, a pressão sob os ativos locais, em especial o dólar, irá impactar ainda mais a economia real.

E a valorização cambial já está afetando o comportamento da inflação (no atacado e no varejo) e, em última instância, a confiança (de empresários e consumidores), minando as expectativas de crescimento econômico. O ritmo da recuperação da atividade pode ser ainda mais lento, em meio a uma contínua onda de casos e mortes por covid-19, ainda se o Copom tiver mesmo de aumentar a Selic. 

Mas para atrair recursos externos, não basta apenas juros mais altos no Brasil. É preciso que o círculo vicioso das contas públicas seja rompido o que, aos olhos dos “gringos”, só vai acontecer se a cartilha da austeridade for seguida. O problema é que sem as reformas, mas com o dólar mais desvalorizado e uma Selic acima do piso histórico, o lado fiscal é afetado. Por tudo isso, o Banco Central está em uma situação delicada, criada pelo próprio governo. 

Agenda econômica fraca

Entre os indicadores econômicos, o Banco Central concentra o calendário, trazendo dados semanais sobre a entrada e saída de dólares (fluxo cambial), às 14h30, antes do anúncio da decisão do Copom, que será a partir das 18h. Já no exterior, saem apenas estoques norte-americanos de petróleo bruto e derivados nos EUA (11h30). 

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